ARTIGO – Luciano De Sousa Cunha, Doutor e Mestre em Psicologia

ARTIGO – Luciano De Sousa Cunha, Doutor e Mestre em Psicologia

Essa semana estamos completando 60 dias de isolamento social. Já tem algum tempo que queria escrever algo sobre isso, sobre minhas impressões.

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Essa semana estamos completando 60 dias de isolamento social. Já tem algum tempo que queria escrever algo sobre isso, sobre minhas impressões.

Esse é um momento delicado para todos. Em algum nível, todos, sem exceção, sofrem algum impacto pela Pandemia: Pessoas que adoecem e se recuperam, pessoas que adoecem e morrem, pessoas perdendo seus negócios, pessoas perdendo seus empregos, pessoas estragando seus relacionamentos, pessoas perdendo entes queridos, pessoas tentando manter seus empregos, pessoas com medo de perder seus empregos, pessoas tentando manter sua renda, pessoas perdendo suas rendas, pessoas… e pessoas são complicadas.

Há quem defenda o isolamento social, há quem defenda o isolamento vertical, há quem defenda que o isolamento não é a melhor opção, e para essas defesas, já vi as mais diversas justificativas.

Entramos em um ponto em que transformamos a pandemia em um problema político, mais do que em um problema de saúde pública. De modo geral, o que se ouve e se lê é que se você defende o isolamento, é um comunista ou um iludido que torce contra o Brasil. Se defende o fim do isolamento, é um bolsonarista desalmado que não se importa com a morte das pessoas e só vai aprender quando alguém da sua família morrer.

Em ambos os casos existem os extremistas e em ambos os casos o que mais me chama a atenção é a falta de sensibilidade ao outro. Eu acredito que nem todos que defendem o isolamento são contra o Brasil e também acredito que nem todos que defendem o fim do isolamento são pessoas desalmadas que não ligam para mortes. Acredito que existem diferentes perspectivas sobre o assunto e existe uma lógica na forma de pensar.


Eu particularmente, sou a favor do isolamento, principalmente levando em consideração os estudos que tenho acesso, as informações, etc. Ao mesmo tempo acho que estou em uma posição muito confortável para opinar sobre o assunto. Consegui manter meu emprego, continuo trabalhando (de uma forma sem dúvidas desgastante) e me sinto em segurança. Só que minha posição não é similar a da grande maioria da população. Convivo com pessoas muito próximas que perderam emprego, perderam renda e enfrentam dificuldades. Quando me coloco no lugar delas, me vejo numa condição de desespero: como pagar minhas contas? Como sustentar minha família? Pagar meu plano de saúde? Manter a comida na mesa? O sistema de saúde pode entrar em colapso, mas e se meus filhos ficarem sem o que comer?

Acredito que esse tipo de condição pode servir de ocasião para defender qualquer posição que seja favorável a diminuir meu desespero. Para uma parte considerável das pessoas que estão na rua, existe alguém em casa dependendo de quem está na rua. E para muitos desses não existe outra opção. Não existe discurso que vai convencer um pai ou uma mãe a ficar em casa se a única forma de prover o sustento dos filhos for sair de casa. Isso não isenta da responsabilidade com o outro adotando medidas de precaução. É uma questão de respeito.

Esses pra mim são os maiores problemas hoje. Sensibilidade ao outro, empatia e respeito. Esses problemas potencializam tudo. Julgamos que nossos problemas são maiores que os dos outros… estamos muito focados no próprio umbigo… os discursos de hoje não agregam… eles dividem… tudo é muito desagregador. Até uma parte considerável das “caridades” seguem as lógicas das mídias sociais, como em uma selfie caricata do sujeito entregando uma marmita ao mendigo enquanto pede para que ele sorria para a foto, tentando angariar curtidas! Essa mesma pessoa é incapaz de dar bom dia ao porteiro do prédio, de valorizar aqueles que estão do lado. No final estamos todos olhando para o próprio umbigo. Defendendo o pão de cada dia ou as vezes a versão da verdade em que me vejo. Parafraseando um amigo que admiro muito, “uma versão é apenas uma versão”. Não existe apenas uma!

Claro que isso não isenta a responsabilidade ao disseminar fake News. Além das fake news, existe o problema relacionado a pessoas em posições de destaque com posturas controversas, mesmo em condições que exigem muito cuidado em função do impacto que produzem sobre o público. O que vemos são declarações sem qualquer tipo de responsabilidade, de todos os lados, dadas por pessoas que deveriam conduzir esse processo, por estarem a frente das decisões no nosso país. Metaforicamente, é como se em meio a uma tempestade, a escolha fosse conduzir o barco pelo caminho mais difícil, mais turbulento e caótico. O caminho mais turbulento nesse caso se refere a estratégia de comunicação, sem um discurso coeso. Entendo que dadas as circunstâncias todos os caminhos serão de alguma forma turbulentos, e um discurso fragmentado, pouco alinhado piora o que já é ruim.

Minimizar o impacto de mortes, afirmar que pessoas morrerão de qualquer jeito ou que há males que vem para o bem demonstra uma insensibilidade que para muitos só seria notada quando as perdas fossem próximas. Assisti um vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=TSuLzMqVsao) que resume bem minha ideia… não existe um número aceitável de mortes, quando nos referimos a quem nós amamos. Nessa lógica, vale lembrar que de modo geral, é provável que todos tenham um ente querido com quem se importam.

Para além do político, vejo as pessoas defendendo que esse é o momento em que podemos ser mais produtivos, afinal, estamos em casa, temos tempo… Temos? Será mesmo? Estamos em casa sim… ainda tentando dar conta do trabalho, com filhos que ficam sobrecarregados por tarefas ou ociosos em frente a TV enquanto trabalhamos… tentando dar conta de tudo. Não estamos de férias! Estamos expostos aos nossos defeitos e aos defeitos do outro de forma contínua e intensificada. Descobrindo nossos limites. Essa lógica perfeccionista é uma ilusão para muitos, um privilégio para poucos. Eu não vejo como as pessoas podem ser totalmente produtivas nessas condições. Isso só serve para aumentar a cobrança para dar conta de mais… e mais… e mais…

Enfim… estamos lidando com problemas demais. Faça o que for possível. Faça por você. Faça por aqueles que vocês amam. Faça algo por alguém, mas dentro do possível. Aceite seus limites. E agradeça se estiver em uma condição confortável. Hoje isso é um privilégio. Essa é a minha versão, só mais uma entre tantas.

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