ARTIGO – Verdades e mentiras sobre o vinho – Manoel Alves Rabelo

ARTIGO – Verdades e mentiras sobre o vinho – Manoel Alves Rabelo

O vinho, para quem não sabe, já era conhecido desde a Grécia antiga, conforme nos dá conta um dos grandes conhecedores de vinho, senão o maior, C

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O vinho, para quem não sabe, já era conhecido desde a Grécia antiga, conforme nos dá conta um dos grandes conhecedores de vinho, senão o maior, Carlos José Vieira, médico capixaba a quem aprendemos a admirar por seus conhecimentos como enófilo, sendo o seu livro “Vinho, Muito Prazer” obra de referência para todos que desejam se iniciar no conhecimento dessa maravilha que é o Vinho. Conforme Vieira, Dionísio, que teria sido concebido na “coxa” de Zeus e criado por ninfas e sátiros, teria cravado um osso de passarinho num caule de parreira e, na sequência, quando árvore já havia alcançado uma conformação robusta, nela cravou um osso de leão e, por último, cravou-¬lhe um osso de asno. Dessa árvore surgiram cachos de uvas e, quando as uvas enfim amadureceram, colheu-as e espremeu-as em taças de ouro e bebeu o seu suco. Nascia então o novo néctar ao qual se convencionou de chamar de, “vinho”.

É verdade que o vinho é visto por alguns como bebida de elite, de pessoas abonadas, o que constitui uma meia verdade. Hodiernamente, é possível encontrar vinhos de boa ou relativa qualidade, com preços compatíveis com os menos abonados, ainda que seja possível encontrar vinhos cujos preços alcançam valores inimagináveis.
Como eterno aprendiz que sou da nobre arte da degustação de vinhos, acumulei alguma experiência ainda que incipiente, por ser diabético, tenho limitações quanto ao consumo imoderado das preciosidades que encontramos no mercado. Mas fiel às recomendações de minha médica, para não beber todo o dia, apenas bebo à noite e, com moderação. Afinal, ninguém é de ferro e a vida é muito breve para que não se possa desfrutar dos prazeres que uma boa taça de vinho nos proporciona.

Mas então, vamos às verdades e as mentiras que são disseminadas em torno deste líquido que nos encanta. Inicialmente, transmito um ensinamento básico que me foi passado, em tom de galhofa: Tomamos vinho branco com frutos do mar e vinho tinto com carnes. Já o vinho rosê, com ambos, mas sempre bem gelado, servindo de exemplo um francês de que gosto muito, “Rosé D’anjou, dado o seu frescor, principalmente em países de clima tropical, como é o nosso caso.

Quando vamos ao Supermercado, ficamos perplexos diante de tantos vinhos na prateleira e ficamos em dúvida sobre o que comprar. A regra básica, segundo um grande conhecedor, Mauro Marcelo Alves, é esquecer a idéia de que brancos somente se prestam aos frutos do mar e os tintos, a carne. Primeiro, temos que pensar para quais tipos de pratos vamos combinar os vinhos. Se os pratos forem leves, um branco ou tinto jovem e não encorpados cairão bem. No entanto, se os molhos a serem utilizados forem fortes ou picantes, a melhor escolha deverá recair em tintos normais ou um “reserva”, por exemplo.

Chamamos de “Reserva” os vinhos que passam por pelo menos 6 meses em barricas, e, “Gran Reserva” aqueles que passam entre 12 e 18 meses em barricas de carvalho, o que lhes conferem um sabor especial e diferenciado em
relação àqueles cujo processo de vinificação é bem mais elaborado, tanto na colheita das uvas quanto na elaboração do vinho, razão pela qual, são mais caros que os demais. É claro que para uma boa qualidade interferem não somente o processo de vinificação quanto o “terroir”, assim denominado o local onde as uvas são plantadas e colhidas, onde o clima e o terreno são considerados favoráveis ao plantio e crescimento das parreiras. Costuma-se dizer que uma região onde chove em demasia, não favorece o surgimento de boas cepas e as uvas se deterioram com mais facilidade.
Até aí tudo bem, mas de que maneira nós consumidores comuns podemos nos iniciar na nobre arte de degustar um vinho e retirar dele todos os benefícios que ele pode nos proporcionar? Quando chegamos ao restaurante e pedimos a carta de vinhos, verificamos uma infinidade de rótulos que não conhecemos, o que fazer? A primeira providência é chamar o “Somelier”, assim denominado a pessoa que é responsável pela apresentação dos vinhos, sendo profundo conhecedor das regiões que os produziu e do seu processo de elaboração. Ele indicará aqueles que julga mais adequados ao seu bolso e gosto. Mas uma vez aberto o vinho, segue-se um ritual de degustação quando o garçom serve uma pequena quantidade na taça e pede que você experimente. Como saber se aquele vinho vai lhe agradar?

Quando já identificamos alguns rótulos conhecidos, fica mais fácil porque já os degustamos antes, gostamos e porque não repetir? O problema surge quando não visualizamos nenhum rótulo conhecido e teremos que, às cegas, escolher, experimentar e dizer se gostamos ou não. Marcelo Alves nos dá os passos para uma degustação exitosa, ou pelo menos agradável. Primeiro, o teste olfativo, que consiste em cheirar o vinho para verificar se não está com cheiro de vinagre (o que acontece com vinhos antigos ou não, mal conservados. O calor é inimigo do vinho. No nariz o aroma do vinho pode lembrar frutas, flores ou vegetais. O segundo teste diz respeito a observação da rolha, se ela não se apresenta apodrecida, porque rolhas estragadas podem conferir ao vinho um gosto que os franceses, em linguagem comum, costumam dizer que o vinho está “bouchoné”, ou seja, com um gosto desagradável que o torna impróprio ao consumo. O terceiro teste é o da degustação propriamente dita, quando você o coloca na boca e verifica se ele está muito ácido, adstringente ou mal elaborado. Como fazer isto? Uma vez na boca, faça movimentos para que as papilas gustativas possam sentir toda a potencialidade do vinho, engula e inspire mais ar pelo nariz, de forma que o bulbo olfativo sinta os aromas.
Tenho um hábito que conservo já há muitos anos, quando se trata de comprar vinho. Ainda que o vendedor me cante em prosa e verso as virtudes do vinho, nunca compro mais do que uma garrafa, isto porque, se não for do meu agrado, apenas gastei o meu dinheiro com uma única garrafa. Ao contrário, confirmada a qualidade do vinho, retorno e compro pelo menos mais uma caixa para que possa degustá-lo mais vezes. Considero, que a degustação de um vinho agradável em seus aromas e paladar, me causa uma grande satisfação e, com moderação, faz bem à saúde.

É muito prático para quem gosta de viajar ao exterior, trazer sempre uma mala de bons vinhos conhecidos, já que aqui, em razão das altas taxas de importação, os bons vinhos estrangeiros chegam ao mercado por preços quase proibitivos. Não precisa ser grande conhecedor de vinhos para apreciar lá fora bons rótulos. O preço da garrafa pode ser um indicativo da qualidade do vinho. Normalmente, vinhos na casa de 20 a 30 euros, costumam ser ótimos. É claro, que os vinhos que já conquistaram o mercado em razão de sua qualidade, são mais caros, seja pela grande procura e, principalmente, pelo fato de que alguns países, notadamente os asiáticos, comprarem as safras antecipadamente para, em alguns casos, as revenderem com grande margem de lucro.

Há também uma regra a ser observada quanto vamos servir dois ou mais vinhos diferentes: 1) Os vinhos brancos secos ou rosés devem ser servidos antes dos tintos; 2) os vinhos tintos leves, devem ser servidos antes dos encorpados; 3) os vinhos jovens antes dos vinhos velhos; 4) os vinhos secos antes dos vinhos doces. De qualquer forma, evite comprar vinhos brancos que se apresentam de cor amarelada, cuja safra tenha sido produzida há mais de quatro anos e os preços de oferta promocional se apresentem excessivamente baixos. Importante lembrar que o preço do vinho é determinado pela sua qualidade. Se o vinho na prateleira é muito barato, desconfie.

Atualmente, um costume disseminado entre os denominados “enochatos”, é o de classificar os vinhos segundo um aplicativo cuja pontuação lhe confere qualidade e ainda indica o valor provável a ser pago pelo vinho. Mas temos aí um problema identificado por um especialista Chileno, Patrício Tápia: “Será que pontuar um vinho é a maneira mais correta de qualifica-lo?” Assim como o autor do questionamento, penso que não. Um vinho para ser produzido e envasado passa por várias etapas. Uma safra pode ser boa ou não, conforme os diversos fatores que interferem no seu íter de produção. No entanto, se um crítico influente do porte de um Robert Parker ou, ainda, de revistas especializadas como é o caso da Wine Spectator, afirmam que uma safra de determinado vinho é excelente e a ela conferem uma pontuação alta, este vinho passa a ser o sonho de consumo de grande parte dos consumidores, de forma que as adegas os vendem num piscar de olhos. Mas a história também registra casos de críticos que pontuaram vinhos medíocres, alavancando vendas e, ao depois, descobriu-se que essas pontuações constituíam fraudes, já que os vinhos envasados, embora de vinícolas tradicionais, não traziam nas garrafas os produtos cujo requisito de qualidade lhe haviam sido conferidos pelos pontuadores.

De outra parte, é muito comum que um vinho do qual eu tenha gostado muito, não venha causar a mesma impressão em outra pessoa que o tenha experimentado. A conclusão lógica é a de que um vinho é algo abstrato e, em consequência, não parece sensato atribuir-lhe em grau absoluto, um valor. O contraponto de tudo o que se disse é que, não existe mal algum, pelo menos por ora, atribuir pontos a algo que apesar de sua subjetividade, necessita de algum referencial, sob pena de ficarmos perdidos sobre os requisitos para sua avaliação.
Por fim, gostaria de sugerir alguns filmes sobre a temática dos vinhos,

leitores possam deleitar-se sobre essa descoberta maravilhosa, que nos encanta, nos alegra e nos emociona.
O primeiro filme que sugiro é “O Segredo de Santa Vitória (1969), por ser divertido e retratar a ligação de um povo com seu vinho, na pequena Vila italiana de Santa Vittoria, onde tudo ia bem, até que os alemães, durante a guerra, resolveram entrar na Vila e confiscar sua maior riqueza que era o vinho.

O segundo filme que recomendo, já bem conhecido e famoso é “A festa de Babette”, 1987, justamente pelo fato de retratar o lado poético do vinho e da gastronomia.

O terceiro filme também é bem conhecido: “Sideways”, 2004, no qual, dois amigos resolvem percorrer a região vinícola da Califórnia antes que um deles se case. Neste filme, constatamos a paixão e a loucura que o vinho pode causar nas pessoas.

O quarto filme, “Um bom ano”, 2006, relata a saga de um executivo do mercado de ações em Londres, que acaba descobrindo que existem algumas coisas que valem muito mais que o dinheiro, e é claro que uma dessas coisas é o vinho. Este filme foi filmada na Provence e protagonizado por Russel Crowe e Marion Cotillard.
O quinto filme que recebe o nome de “O Julgamento de Paris, 2008, aborda de forma bem divertida um famoso episódio ligado ao vinho que ficou conhecido como o Desafio de Paris, em 1976. O episódio consistiu no fato de um inglês, lojista de vinhos, ter organizado uma degustação às cegas de grandes vinhos franceses contra “obscuros” vinhos californianos, absolutamente desconhecidos dos degusta dores europeus. O resultado final foi surpreendentemente favorável aos vinhos californianos, chocando os degustadores franceses, repercutindo em todo mundo.
O sexto e último filme, “Sour Grapes”, 2017, retrata um fato que efetivamente aconteceu: a descoberta e a prisão do maior falsificador de vinhos da história. O filme foi ambientado no mundo dos super-ricos americanos e, no auge do “super boom” financeiro dos anos 2000, quando um jovem indonésio, Rudy Kurniawan, aparece como um generoso anfitrião, expert em vinhos, oferecendo inúmeros vinhos raros, de sua própria adega, consegue vender uma enorme quantidade de vinhos valiosíssimos e de safras raras para colecionadores americanos. Mas havia um detalhe: todos eram falsos.

Muito bem, espero que tenha conseguido trazer, ainda que brevemente, uma visão do que podemos considerar hoje uma paixão, o senhor vinho.

Manoel Alves Rabelo é Desembargadores do TJES
E-mail – msrrabelo@hotmail.com
revistaekletica@gmail.com

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